Conceição Souza, de 62 anos, pleiteia a aposentadoria após mais de três décadas na profissão

Foto: Arquivo pessoal
Ser professor é ser fudamental na vida dos estudantes. Uma vocação. A trajetória em sala de aula demanda a dedicação de uma vida toda, e não foi diferente com a professora de História, Conceição Souza, de 62 anos. Natural de Timbaúba, na Mata Norte de Pernambuco, hoje, Ceiça faz parte de um grupo formado por mais de 2 milhões de brasileiros que aguardam a aposentadoria, pensão ou auxílio do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).
A professora conta que o momento representa uma mistura de sentimentos: expectativa pela nova fase, mas ao mesmo tempo, saudades das mais de três décadas em sala de aula. Uma paixão que começou ainda criança.
“Eu sou a única filha mulher de quatro filhos. Então, como eu não tinha com quem brincar, conversava muito com as plantas. E eu dava aulas às plantas! Cada uma tinha nomes: era Sebeca, Sibita… Eu botava um salto e ficava conversando com elas. Uma vez minha mãe viu e disse: ‘essa menina só pode ser professora, porque eu nunca vi gostar tanto de mandar", sorriu.
Já nessa fase a professora Conceição Souza mostrava sua personalidade. De temperamento forte e opinião firme, o magistério surgiu naturalmente.
“Quando o professor faltava, mandava que eu copiasse no quadro. Então, quando eu terminei o Científico, passei no vestibular. Mas havia a dificuldade de ser do interior e ir para a capital. Meu irmão mais velho tinha passado em física na Católica, e já estudava lá a trancos e barrancos. Então, minha mãe disse: ‘Não tem como você ir para Recife, curso de moça pobre é ser professora’. Fiz o Magistério no CNEC (Campanha Nacional de Escolas da Comunidade), e no terceiro ano a gente fazia estágio em escola. Pelo meu desempenho, quando terminei, eu e uma amiga ficamos com professoras da educação infantil, que na época era o pré-escolar”, detalha.
Foto: Arquivo pessoal
Trajetória
Timbaúba é marcada pela economia da cana de açúcar, e foi na escola da Usina Cruangi, na década de 1980, que Ceiça se construiu enquanto professora, após ser aprovada em um teste. “Eu aprendi muito, tive a oportunidade de ir para congressos. Era uma escola aberta, onde os alunos podiam entrar em qualquer sala e socializar com todos. A escola era em tempo integral. Saía de casa às 6h e só chegava às 18h”, relata.
Apesar da rotina cansativa, Ceiça nunca correu dos desafios. Prova disso é que boa parte da carreira dela se deu na antiga Fundação Estadual para o Bem Estar do Menor (FEBEM), hoje nomeada de Fundação de Atendimento Socioeducativo (Funase). A experiência com os socioeducandos fez com que ela percebesse a importância da prática no processo pedagógico, tanto do ponto de vista das atividades educacionais quanto do exemplo de vida.
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“Na FEBEM, eu convivi com alunos que tinham diversos ‘crimes nas costas’. Que tinham roubado, que tinham cometido um assalto seguido de morte. Muitos revelavam para mim que queriam ter um tênis de marca. Mas eu perguntava: ‘você trabalhou? Olhe para o meu pé, estou usando um sapatinho fechadinho porque eu só posso comprar esse’”, dizia a eles.
Seu jeito firme, mas ao mesmo tempo, carinhoso, contribuiu no processo de ressocialização de muitos jovens - que nunca esqueceram de sua professora.
“Quando me aposentei da FUNASE, em 2019, não perdi vínculos. Alguns meninos que nós conseguimos ressocializar me encontram hoje, vão à minha casa. Tem um que mora em São Paulo, e quando veio a Timbaúba, foi na minha casa, porque disse que não consegue se esquecer de mim”, contou.
Os desafios da educação
Em 2003, Ceiça viveu uma completa virada em sua trajetória. O trabalho com foco na ressocialização foi aliado ao ensino privado - ainda mais, em uma instituição religiosa, a tradicional Escola Santa Maria. Depois de tantos anos convivendo com alunos de diferentes realidades, foi lá que a professora se deparou com mais um grande desafio: a pandemia de Covid-19. E assim como toda rede de ensino, ela precisou se readaptar.
“Foi um inferno me adaptar a estar na frente do computador, porque elétrica do jeito que eu sou, ter que ficar sentada ali foi me matar. Mas todos os dias eu tomava banho, vestia minha farda e colocava o salto, porque eu acho que se não fizesse isso, não conseguiria me concentrar para dar aula. Depois, até as vizinhas diziam: ‘ouvi toda aula de história sobre a Idade Média’. Aquilo foi o maior desafio da minha vida”, relata sorrindo.
Foto: Arquivo pessoal
A readaptação foi acompanhada da percepção de que o trabalho desenvolvido em sala de aula - ainda que virtual - depende cada vez mais da relação de proximidade com a família. Ceiça afirma que, apesar de adotar uma postura democrática sobre a aplicação das tecnologias no ambiente escolar, a pandemia mostrou que o processo de aprendizagem precisa de regras bem definidas para dar certo.
“O que mais me chamou atenção naquele período foi a educação familiar. ‘Tinha menino’ que ia assistir aula de pijama. ‘Tinha menino’ que estava assistindo a aula sem ligar a câmera, deitado na cama. Deixava lá eu falando e ele tava dormindo. E não existia uma cobrança por parte da família sobre isso”, afirma.
Reconhecimento
Para os que ouviram seus conselhos, muitas vezes acompanhados por fimes puxões de orelha, a professora Conceição Souza ficou marcada. E ao mesmo tempo, ela garante que não tinha como passar mais de 30 anos em sala de aula e não carregar consigo as histórias, sonhos e vivências com seus eternos alunos.
“Eu sinto muita vontade de chorar quando me lembro das coisas, e uma gratidão a Deus por ter me proporcionado tudo isso. Tem um pensamento que é bem assim: ‘há mais felicidade em doar do que em receber’. Então, quando você passa em uma sala de aula, você convive mais com os filhos dos outros do que com os seus próprios filhos. E essa doação tem retorno”, garante.
Aposentada do Estado desde 2019, o último ano letivo enquanto professora de História no ensino privado foi em 2024. Pouco tempo, capaz até de fazer com que Ceiça cometesse um equívoco, no mínimo, compreensível. “Semana passada, quando saiu o horário de avaliação da escola, ainda chegou bem rápido no meu pensamento: ‘tenho que preparar as provas’, mas logo me lembrei que eu não tô mais fazendo provas. Parece até que você está fazendo uma coisa errada”, gargalha.
Foto: Arquivo pessoal
Para além da enorme quantidade de trabalho, muitas vezes levado para casa e dividido com o esposo e o casal de filhos, a professora fez questão de permear sua trajetória com momentos memoráveis. Um deles foi a criação de uma cápsula do tempo, onde pediu aos alunos para que projetassem o futuro.
“Essa turma era 7ª Série em 2013, e eu fui mestre de turma deles. Na confraternização, sugeri fazermos uma ‘cápsula do tempo’. Fizemos uma reflexão sobre como pretendíamos estar futuramente, colocamos em papel, guardamos também algumas fotografias, e guardamos dentro dessa caixa vedada. Eu me lembro que tinha colocado que meu objetivo de vida era ver meus filhos terminarem a faculdade e estarem todos exercendo suas profissões. Agora eles estão”, aponta.
Muitos dos planos, sonhos e destinos foram completamente alterados pelas areias do tempo. Mas o destino presenteou a professora com a possibilidade de reencontrar aqueles mesmos alunos 12 anos depois, e ouvir deles o quanto foi importante em suas vidas.
“Muitos meninos foram embora, se mudaram, seguiram seus caminhos. No ano passado, arrumando uma gaveta, achei a cápsula do tempo. Eu não achava justo abrir essa cápsula do tempo sozinha sem a presença deles. Procurei o contato de uma aluna e mandei mensagem para ela. Na mesma hora foi feito um grupo no Whatsapp e cada um foi mandando o contato do outro. E marcamos um momento em 22 de dezembro para que todo mundo pudesse vir e que fosse aqui na escola. Fomos para casa de uma das alunas e eu levei a cápsula do tempo. Fizemos um almoço e abrimos a cápsula. Quando fomos ver as fotografias, foi muita risada, e depois cada um fez um vídeo dizendo o que estava fazendo ou que também não estava fazendo. Foi um momento muito prazeroso”, lembra.
Foto: Arquivo pessoal
Aposentadoria
Depois de tantos anos atuando na educação, a professora Conceição Souza está prestes a se juntar a um grupo formado por 23,5 milhões de aposentados. O dado é do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), que celebra 102 anos da Previdência Social no Brasil e aponta para um futuro com ainda mais assistidos. De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2070, cerca de 37,8% dos habitantes do país serão idosos.
Agora, Ceiça fala que o momento é de desacelerar e curtir outras experiências, até então, inimagináveis diante da correria imposta pela sala de aula.
“Eu completei 62 anos e tenho 25 anos de contribuição do INSS como professora em sala de aula. E eu estou pretendendo fazer outras coisas que passei a vida inteira sem poder fazer, como costurar, fazer meus crochês. Agora mesmo, tenho uma colega daqui do trabalho que está grávida, e eu já tô fazendo as fradinhas dela. Eu quero estar mais na minha casa. Tinha espaços na minha casa que eu não aproveitava porque eu estava o dia inteiro fora de casa. Então eu quero aproveitar isso, visitar as pessoas que gosto e me engajar em alguma atividade em que eu possa fazer algo por alguém”, deseja.
Foto: Arquivo pessoal
Questionada sobre o que permanece daquela professora que começou a trajetória na educação infantil, na década de 1980, em um ambiente rural, Ceiça é categórica – como sempre - ao afirmar que é o amor. Foi isso que a manteve firme durante tantos anos.
“Permanece o carisma e a essência de educadora. Educadora professora. Somente isso. Também a experiência, mas em primeiro lugar, o amor ao carisma que eu tenho. Quando você entra na sala de aula e vê aquelas crianças, no 6º ano, por exemplo, é muita inocência. Mas quando você chega no 3º Ano do Ensino Médio, já tem a liberdade de perguntar assim: "E aí, tá beijando muito?", sorri e se emociona.
Foto: Arquivo pessoal
Edição - Daniele Monteiro
Sonorização - Lucas Barbosa
Reportagem - Lucas Arruda
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