Com cada vez mais gente e menos educação, cresce o número de tragédias anunciadas

Foto: Reprodução/TV Globo
Paciência e respeito deveriam ser palavras frequentes no vocabulário dos motoristas, motociclistas, ciclistas e pedestres da Região Metropolitana do Recife. Quem trafega diariamente por avenidas como a Abdias de Carvalho, Caxangá, Agamenon Magalhães e Pan Nordestina sabe que vai presenciar uma série de hostilidades e imprudências. E com cada vez mais gente e menos educação no trânsito da RMR, cresce o número de tragédias anunciadas.
Imprudência e mortes
De acordo com a Autarquia de Trânsito e Transporte do Recife (CTTU), entre 2013 e 2023, o aumento na frota de veículos foi de 26%. Com relação a motos, o crescimento foi de 53%. Junto ao número de rodas na pista, também subiu o número de mortos vítimas de sinistros de trânsito. Só no Recife, foram 144 no ano passado, como aponta o último Relatório Preliminar de Sinistros de Trânsito com Vítimas Fatais, produzido pela CTTU.
O Gerente Geral de Mobilidade Humana da CTTU, Antônio Henrique, avalia que o excesso de velocidade está na raiz desses dados.
“A gente sabe que quem transita nas cidades e nas áreas urbanas, onde tem muita circulação, cruzamento, pessoas, deve andar mais devagar. Vemos as pessoas acelerando muito, se colocando em risco e colocando o próximo em risco. Cada um que queira chegar mais rápido, saindo do ponto A para o ponto B o mais breve possível. Mas a gente sabe que, no trânsito, ninguém está sozinho”, lembra.
Seja nas BRs que cortam o Grande Recife ou no perímetro urbano, o excesso de velocidade combinado à imprudência criam um cenário preocupante para o trânsito e à saúde. Um público, em específico, tem chamado a atenção: os motociclistas de aplicativo, e por motivos que vão desde ultrapassagens indevidas até batidas causadas por falta de atenção.
Na RMR, dos 281 atendimentos com envio de ambulâncias pelo Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), entre os dias 6 e 9 de dezembro, 151 foram a ocupantes de motos. Números que deixam os serviços de saúde em alerta.
O motociclista Carlos Valle, fundador da Valle Corretora de Seguros, descreve que, independente da responsabilidade do sinistro de trânsito, a maioria das situações poderia ser evitada com o mínimo de paciência e prevenção. No entanto, os desrespeitos cotidianos promovem um clima de animosidade entre motoristas e motociclistas, que ignoram completamente os princípios da direção defensiva.
“Você tem que ter responsabilidade, conhecer as regras e os perigos. Sei que se eu estiver numa fila de trânsito na Avenida Agamenon Magalhães e for cruzar entre os carros a toda velocidade, se uma pessoa sair da frente de um ônibus, vai acontecer um sinistro de trânsito. A partir do momento em que eu sei que o sinistro pode existir e posso evitar, está sob minha responsabilidade”, fala.
Violência no trânsito
Nesse sentido, Carlos Valle acredita que campanhas devem ser promovidas em todo o ano, para além do Maio Amarelo, mês de conscientização para a redução de mortos e feridos no trânsito. Ele também avalia a importância de uma atuação mais ativa dos agentes.
“Os agentes de trânsito (os amarelinhos) poderiam ser treinados nesse ponto. Passa pela educação do usuário. O pedestre não sabe atravessar uma rua, o ciclista acha que é o senhor absoluto, e não é assim. As pessoas precisam ter consciência dos seus lugares no trânsito. Custa nada você ver se realmente falhou? Aqui não se admite. É confusão, cada um para um lado, uma tapa, um tiro. A gente precisa melhorar nesse ponto, e eu acho que tem como fazer”, finalizou Carlos Valle, indicando que esse é um movimento gradual.
Segundo dados do Ministério da Saúde, no Brasil, cinco pessoas morrem por hora em decorrência de brigas de trânsito. Entre ofensas, gestos agressivos e, de fato, a violência física, o motorista pernambucano se destaca como o quinto mais rude do país, atrás apenas do Ceará, da Bahia, do Rio de Janeiro e de São Paulo.
Problemas cotidianos
Janaina Ferreira sabe bem o que é essa realidade, carregada de buzinas, olhares repressivos, cortes imprudentes, e mais buzinas. Ela dirige pelo Grande Recife há 25 anos e acompanhou a evolução do tráfego, da impaciência e do desrespeito no trânsito da região. Apesar de morar em Timbaúba, na Mata Norte, ela trabalha como motorista de aplicativo na RMR, o que a faz pegar a estrada logo cedo. Um verdadeiro exercício de paciência.
“A quantidade de estresse e de problemas diários que se enfrentam no trânsito do Recife são até difíceis de enumerar. O primeiro problema ao chegar na cidade é a Avenida Abdias de Carvalho, com uma quantidade exorbitante de carros parados na via. São vários sinais de trânsito! Acho que eles são importantes, mas às vezes tem um ao lado do outro, a menos de 200m. É difícil ter acesso a cidade, na íntegra, com tantos obstáculos”, pontua.
Em julho, a CTTU começou a implantar semáforos inteligentes na Avenida Abdias de Carvalho, entre a Chesf e o Estádio Adelmar da Costa Carvalho (Ilha do Retiro), para tentar melhorar a circulação. Mas, Janaina lembra que outras medidas poderiam ser adotadas, a exemplo da realização de intervenções nas pistas apenas nos períodos de menor circulação, como a madrugada. Um ponto que também atrapalha, na visão da motorista de aplicativo, é a falta de punição para alguns costumes que foram normalizados com o tempo.
“O trânsito do Recife, além de ser muito tenso e intenso, falta gentileza e educação. Os motociclistas criaram uma linha imaginária em que o meio de toda uma via é o corredor deles. Eles correm, não se assustam com a possibilidade de um carro, por algum motivo, precisar puxar para um lado e bater neles. E não é bem assim. Existe uma faixa de trânsito para que se transite nela. E isso causa vários acidentes e discussões diárias, além da falta de educação, que também é do motorista”, observa.
Educação
Tanto Janaina Ferreira quanto Carlos Valle acreditam que é preciso dar um passo atrás para conseguir reverter esse cenário. Valores como educação e o respeito no trânsito precisam ser reforçados na formação dos condutores, para além de ter que decorar o Código de Trânsito Brasileiro (CTB) na conquista da habilitação.
O Gerente Geral de Mobilidade Humana da CTTU, Antônio Henrique, corrobora esse pensamento e afirma que a Autarquia tem acompanhado a necessidade de ações mais efetivas.
“A gente fala que é sempre importante fazer campanhas para o motorista, porque ele está dentro de um equipamento que pode prover uma velocidade maior, e também ao motociclista, que está muito mais exposto. É muito difícil a gente chegar nesse público, mas através das auto-escolas, das escolas, em si, com as crianças e adolescentes, a gente consegue permear e multiplicar essas informações”, conclui.
Motoristas, motociclistas, ciclistas e pedestres: todos podem e devem promover um trânsito mais seguro desde já. Afinal, é a vida das pessoas que está em jogo. Mais ou menos rápido, o destino não vai sair do lugar. E quem trafega pelo Grande Recife ligado nas ondas da CBN sabe que encontrar as principais avenidas com fluxo tranquilo é, no mínimo, improvável.
Paciência e respeito mudam vidas; no trânsito, salvam vidas.
Com participação de Maria Luna, edição de Daniele Monteiro e sonorização de Lucas Barbosa,
Reportagem - Lucas Arruda
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