Opinião | Pesquisas eleitorais antecipadas: Um debate necessário

*Por Delmiro Campos, Advogado Eleitoral
As eleições de 2026 ainda estão distantes, mas as pesquisas de opinião já tentam pintar cenários, testar nomes e alimentar discussões. Para quem, como eu, vive o dia a dia do Direito Eleitoral, essas antecipações soam quase irrelevantes diante das tantas variáveis que o futuro reserva – economia, crises políticas, novos nomes que surgem do nada. Mas para o eleitor comum, o impacto é outro: essas projeções, muitas vezes frágeis, podem confundir mais do que esclarecer, criando expectativas que desmoronam com o tempo.
O que me preocupa, é que essas pesquisas escapam completamente do radar da Justiça Eleitoral fora do período oficial. A legislação vigente e as resoluções do TSE são claras: o registro só é obrigatório a partir de 1º de janeiro do ano da eleição. Antes disso, os institutos operam sem freios, sem precisar mostrar como coletam dados, quem entrevistam ou que métodos usam. É um vazio que deixa o processo vulnerável, e eu me pergunto: até onde isso influencia o jogo democrático sem que ninguém controle?
Felipe Nunes, da Quaest, já disse algo que ressoa bastante: para entender o peso de um candidato, não basta olhar a intenção de voto; é preciso cruzar com o contexto político e o quanto aquele nome já está consolidado na cabeça do eleitor. Ele tem razão – e a experiência dele, dirigindo um instituto respeitado, dá respaldo a isso. Rafael Cortez, do IDP, vai na mesma linha quando aponta que essas pesquisas refletem mais o humor do governo atual do que o que vai acontecer lá na frente. Fábio Vasconcellos, da UERJ, reforça o quanto a incerteza manda nesse jogo: “Sem saber quem estará na disputa ou como a economia vai estar, isso é quase futurologia”. Todos eles – cientistas sérios, com trajetória nacional – mostram que o problema não é só jurídico, mas também de bom senso.
Antonio Lavareda, um dos maiores nomes em eleições no Brasil, já alertou em entrevista recente que “pesquisas são ferramentas de análise, não oráculos”. Ele está coberto de razão. Trabalhei em campanhas em que vi números virarem pó no dia da votação, porque o eleitor decide com base no que vive, não no que uma pesquisa projetou meses antes. Aqui em Pernambuco, aliás, as especulações não fogem dessa imprecisão. Falta clareza sobre como as campanhas locais vão se conectar aos grandes players nacionais, sem falar no arranjo partidário que ainda nem começou a se desenhar. E tem mais: as composições das chapas, com duas vagas ao Senado em jogo no próximo ano, estão cheias de indefinições. Como cravar algo assim tão cedo?
No Congresso, há quem tente botar ordem nisso. O PL 2567/22, do deputado Ricardo Barros, quer punir quem divulgar pesquisas com erros gritantes perto do pleito – uma ideia que podia se estender a essas antecipações sem pé nem cabeça. O PL 5301/20, do Sanderson, e o PL 16/23, do Rubens Otoni, também buscam limitar a bagunça nos dias antes da eleição, preocupados com o tal “voto útil” que os números podem distorcer. São tentativas válidas, mas ainda não pegam o problema pela raiz: a falta de regras claras fora do calendário eleitoral.
Eu acredito que não dá para proibir essas pesquisas – seria um exagero contra a liberdade de informação. Mas exigir um registro facultativo no TSE, com os dados abertos para qualquer um ver, seria um meio-termo justo. Assim, o eleitor poderia julgar por si mesmo se aquilo presta ou não.
As eleições de 2026 vão depender de muita coisa que ninguém prevê hoje: o humor da economia, os tropeços do governo, os nomes que vão surgir. Como alguém que já viu de tudo nesse campo, de imediato só desejo uma coisa: que as pesquisas ajudem a esclarecer, não a embaralhar ainda mais o que já é complexo.
Delmiro Campos é advogado especializado em Direito Eleitoral.